Original Recibido: 28/06/2026│Aceptado: 28/09/2026
Necessidades de superação
profissional dos gestores desportivos na planificação
e organização de eventos nas Instituições de Ensino Superior de Tete,
Moçambique
Professional development needs of sport event managers
in Higher Education Institutions of Tete, Mozambique
José
Tomo Meque Dos Santos. Licenciado en Ciencias del Deporte. Máster en Ciencias
del Deporte. Universidad Eduardo Mondlane. Maputo. Mozambique. [josesantos@gmail.com]
Luis
Bertot Ortega. Licenciado en Cultura Física. Doctor en Ciencias de la Cultura
Física. Profesor Titular.
Universidad Eduardo Mondlane. Maputo. Mozambique.
Universidad de Guantánamo. Cuba. [lbertotortega@gmail.com]
Pedro Hidalgo Reyes. Licenciado en Cultura Física. Doctor
en Ciencias de la Cultura Física. Profesor Titular. Universidad de Granma.
Bayamo. Cuba. [phidalgor@udg.co.cu]
Resumo
O objetivo do presente estudo consistiu em diagnosticar
as necessidades de capacitação
e superação profissional
dos gestores desportivos das Instituições
de Ensino Superior (IES) de Tete, Moçambique,
no âmbito da planificação e
organização de eventos desportivos.
Como metodologia, realizou-se
um estudo exploratório-descritivo com
enfoque misto e triangulação de quatro
fontes de informação: análise documental (10 documentos institucionais),
questionário aplicado à totalidade
da população-alvo de gestores desportivos
(n = 19), observação estruturada
de 246 eventos desportivos e entrevistas semiestruturadas a cinco especialistas em gestão desportiva. Entre os
resultados obteve-se que
apenas 20 % dos documentos institucionais contemplava iniciativas formais
de capacitação; 42,1 % dos gestores não tinha participado em atividades de superação profissional nos últimos dois
anos; unicamente 15,8 % dos inquiridos considerou adequada a infraestrutura disponível; e
apenas em 36,6 % dos 246 eventos observados a infraestrutura
foi apropriada. Os cinco
especialistas consultados coincidiram unanimemente na insuficiência dos recursos financeiros
e na falta de uma planificação estratégica sistemática. Concluiu-se que os gestores desportivos
das IES de Tete enfrentam carências
estruturais, técnicas e
organizativas concordantes entre as quatro fontes de evidência, as quais afetam a qualidade na organização
de eventos. Estes achados fundamentam a criação de uma estratégia de superação profissional, cuja efetividade se avalia numa investigação complementar.
Palavras-chave: gestão desportiva; superação profissional; eventos desportivos; ensino superior; Moçambique.
Abstract. Aim: To diagnose
the professional development needs of sport event managers at Higher Education
Institutions (HEIs) in Tete, Mozambique, regarding the planning and organisation of sports events. Methods:
Exploratory-descriptive mixed-methods study with triangulation of four data
sources: document analysis (10 institutional documents), a questionnaire
applied to the entire target population of sport managers (n = 19), structured
observation of 246 sports events, and semi-structured interviews with five
sport management specialists. Results: Only 20% of institutional documents
mentioned formal capacity-building initiatives; 42.1% of managers had never
participated in professional development activities in the previous two years;
infrastructure was considered adequate by only 15.8% of respondents; and only
36.6% of the 246 observed events presented adequate infrastructure. All five
interviewed specialists agreed on the insufficiency of financial resources and
the absence of systematic strategic planning. Conclusions: Sport event managers
at HEIs in Tete face structural, technical, and organisational
deficits, convergent across the four evidence sources, which compromise the
quality of sports event management. The findings underpin the design of a
professional development strategy, whose effectiveness is evaluated in a
companion study.
Keywords: sport management; professional development; sports events; higher
education; Mozambique.
Introdução
A gestão desportiva define-se como o processo sistemático
de planificar, organizar, dirigir e avaliar recursos e atividades no âmbito do
desporto com o fim de alcançar metas organizacionais e sociais. Nas
Instituições de Ensino Superior (IES) cumpre um papel fundamental no
desenvolvimento integral do estudantado e no fortalecimento da comunidade
universitária; transcende a mera dimensão competitiva para se consolidar como
um valioso instrumento educativo e cultural (Chelladurai
& Kerwin, 2018).
Nas IES, ganha um valor estratégico adicional, na medida
em que os eventos desportivos operam simultaneamente como ferramentas
pedagógicas, plataformas de identidade institucional e espaços de investigação
aplicada (Chelladurai, 2014). No ambiente universitário, a gestão desportiva
possui dinâmicas singulares derivadas da sua estreita articulação com o ensino,
a investigação e a extensão académica (Chelladurai & Kerwin, 2018).
Além disso, a administração de recursos e recintos
desportivos constitui um desafio recorrente para as IES. Caracteriza-se pelo
uso de instalações partilhadas, orçamentos limitados e uma marcada dependência
de alianças externas para a manutenção da infraestrutura (Chelladurai, 2014).
Para além do rendimento desportivo, a prática desportiva
no âmbito universitário impulsiona o desenvolvimento de competências
transversais, tais como a liderança, o trabalho em equipa e a resiliência, de
elevado valor no mercado laboral atual (De Knop et al., 1999; Chalip, 2006).
Responde, ainda, aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações
Unidas, particularmente ao ODS 3 (Saúde e Bem-Estar) e ao ODS 4 (Educação de
Qualidade).
De modo particular, a organização de eventos
desportivos universitários exige um conjunto de competências que vão além do
conhecimento técnico de uma modalidade desportiva. De acordo com Parent e
Ruetsch (2021), a gestão de eventos desportivos implica processos complexos de
planificação estratégica, coordenação logística, gestão de recursos humanos e
financeiros, marketing, comunicação e avaliação de resultados.
A literatura recente coincide em identificar um
núcleo de competências profissionais indispensáveis para o gestor desportivo.
Fernandes e Dos Santos (2023), num estudo sobre competências do gestor
desportivo na organização de eventos, destacam as seguintes: capacidade de
planificação e organização, domínio de ferramentas de gestão de projetos,
habilidades comunicativas, liderança de equipas, gestão orçamental,
conhecimento de protocolos de segurança e avaliação do impacto do evento.
Assimismo, López e Sánchez (2022) enfatizam a
crescente importância das competências digitais, como o uso de plataformas de
inscrição em linha, a gestão de redes sociais e a análise de dados para a
tomada de decisões. No âmbito africano, Beutler (2021) adverte que os modelos
de gestão desportiva importados de contextos ocidentais costumam exigir uma
adaptação crítica às realidades socioculturais e económicas locais,
caracterizadas pela escassez de recursos e pela necessidade de soluções
inovadoras.
Em relação à superação profissional dos gestores
desportivos, esta entende-se como o processo contínuo de atualização de
conhecimentos, habilidades e atitudes. Constitui, além disso, uma condição
indispensável, ainda que frequentemente adiada, para alcançar a
profissionalização do setor. A investigação em desenvolvimento profissional
dentro da gestão desportiva sustenta que as metodologias tradicionais de
ensino, tais como as conferências teóricas isoladas, resultam insuficientes
para enfrentar os desafios operativos quotidianos, promovendo em seu lugar
modelos focados na mentoria e na aprendizagem experiencial (Guidotti et al.,
2023).
A literatura internacional recente tem procurado
estruturar estes conhecimentos, competências e habilidades (K/C/S, pela sigla
em inglês) em quadros de referência harmonizados, aplicáveis ao âmbito
educativo e ao aperfeiçoamento profissional. No que respeita a Moçambique, a
literatura sobre gestão desportiva universitária encontra-se ainda pouco
desenvolvida e predominantemente orientada para enfoques qualitativos com
escassa triangulação de dados quantitativos; lacunas metodológicas que este
estudo procura superar integrando a análise documental, o inquérito censitário,
a observação estruturada e as entrevistas em profundidade.
Em síntese, a revisão teórica sustenta três premissas
centrais que orientam este trabalho: (1) a gestão desportiva universitária
exige competências técnicas e transversais específicas, cuja ausência
compromete a qualidade dos eventos organizados; (2) as carências de formação
possuem um carácter sistémico e institucional, não meramente individual; e (3)
uma superação profissional efetiva requer programas contextualizados,
experienciais e fundamentados em diagnósticos prévios, o que justifica a
arquitetura metodológica adotada nesta investigação.
Como se constata, a gestão desportiva emerge
como um campo profissional estratégico no contexto do ensino superior, onde o
desporto universitário cumpre funções formativas, de integração e de projeção
institucional. Em Moçambique, e particularmente na província de Tete, as instituições
de ensino superior têm experimentado uma expansão notável nas últimas duas
décadas, o que trouxe consigo uma maior procura de atividades desportivas
planificadas e organizadas com critérios de qualidade (Chambal & Cossa,
2022).
Perante esta realidade, o presente artigo tem como
objetivo diagnosticar as necessidades de superação profissional dos gestores
desportivos das IES de Tete em matéria de planificação e organização de eventos
desportivos, empregando um desenho exploratório-descritivo com enfoque misto.
Este diagnóstico proporciona a evidência empírica necessária para conceber uma
estratégia de superação profissional, cuja efetividade prática se avalia numa
investigação complementar.
Materiais e métodos
Adotou-se um desenho de investigação aplicada, de
carácter exploratório-descritivo e enfoque misto (qualitativo e quantitativo),
apoiado na triangulação metodológica de quatro fontes de informação (Creswell
& Plano Clark, 2018). A orientação exploratória justifica-se pela escassez
de estudos prévios em Moçambique sobre o aperfeiçoamento de gestores
desportivos, enquanto a componente descritiva permite
detalhar com precisão o estado atual das práticas de gestão.
A investigação realizou-se nas IES situadas na província
de Tete, Moçambique; uma região marcada por desafios
socioeconómicos e geográficos que incidem diretamente no desenvolvimento do
desporto universitário, abrangendo desde limitações severas de infraestrutura
até à falta de planos contínuos de capacitação para os gestores.
O estudo contou com a participação de: (i) a totalidade
da população-alvo de gestores desportivos das IES de Tete (n = 19), que
responderam ao questionário estruturado, garantindo um alcance censitário; (ii)
cinco especialistas em gestão desportiva, entrevistados mediante um guião
semiestruturado; (iii) 246 eventos desportivos organizados pelas IES, avaliados
através de observação estruturada; e (iv) dez documentos institucionais
(regulamentos, relatórios de atividades e planos de ação), analisados
exaustivamente.
Empregaram-se quatro instrumentos de investigação:
a) Guião de análise documental, concebido segundo os
critérios de Bardin (2011), aplicado a regulamentos, relatórios e planos
operacionais das IES.
b) Questionário estruturado, adaptado do modelo de De
Vaus (2002), administrado aos 19 gestores desportivos.
c) Guião de observação estruturada, elaborado a partir
das diretrizes de Kawulich (2005), utilizado na avaliação presencial de 246
eventos desportivos.
d) Guião de entrevista semiestruturada, baseado no
enfoque de Merriam e Tisdell (2015), aplicado aos cinco especialistas em gestão
desportiva.
Os dados quantitativos (obtidos do questionário e das
observações) foram processados através do programa SPSS 21, utilizando
ferramentas de estatística descritiva (distribuição de frequências e
percentagens). Os dados qualitativos (provenientes das entrevistas e da análise
documental) foram examinados mediante análise de conteúdo categorial (Bardin,
2011), identificando temas e categorias recorrentes. A triangulação das quatro
fontes realizou-se seguindo os princípios de Patton (1999), o que permitiu
contrastar convergências e divergências entre os dados.
Relativamente às considerações éticas, a investigação seguiu os
princípios da Declaração de Helsínquia, assegurando o consentimento informado
de todos os participantes, o anonimato, a confidencialidade da informação e a
transparência na apresentação dos resultados. Nota editorial: sugere-se
incorporar e citar na versão definitiva do artigo o número de parecer/processo
do comité de ética institucional (UEM/ESCIDE) que aprovou formalmente a
execução do estudo, por não constar explicitamente no texto original.
Entre as principais limitações do estudo destacam-se: a
escassa literatura especializada sobre o contexto moçambicano, o que exigiu a
adaptação de modelos teóricos internacionais e regionais; a delimitação
geográfica à província de Tete, que limita a extrapolação direta dos dados a
outras regiões do país; e as dificuldades logísticas derivadas da dispersão
geográfica dos gestores entre as diferentes IES, o que pode ter condicionado a
profundidade de algumas respostas qualitativas.
Análise e discussão
dos resultados
Análise documental
O exame dos dez documentos institucionais evidenciou uma
presença sumamente reduzida de mecanismos formais de capacitação e avaliação.
Apenas 20 % dos documentos contemplava programas ou iniciativas formais de
superação profissional para os gestores desportivos, e apenas 20 % incluía procedimentos de avaliação
sistemática posteriores aos eventos.
Tabela 1.
Frequência de aspetos identificados na documentação institucional (N = 10)
|
Aspeto
identificado |
N.º de documentos |
Percentagem (%) |
|
Capacitação
profissional |
2 |
20,0 |
|
Planificação
estratégica detalhada |
4 |
40,0 |
|
Avaliação
posterior ao evento |
2 |
20,0 |
Resultados do questionário
As respostas
dos 19 gestores confirmaram a insuficiência das atividades de formação: 42,1 %
afirmou não ter participado em nenhuma atividade de superação profissional
durante os últimos dois anos. A infraestrutura foi classificada como adequada
por apenas 15,8 % dos inquiridos, enquanto a participação estudantil
nos eventos foi classificada
como plenamente satisfatória por unicamente
21,1 %.
Tabela 2.
Perceções dos gestores sobre aspetos críticos da gestão desportiva (N = 19)
|
Aspeto avaliado |
Sim (%) |
Parcialmente (%) |
Não (%) |
|
Capacitação recebida nos últimos 2 anos |
57,9 |
— |
42,1 |
|
Infraestrutura
adequada |
15,8 |
47,4 |
36,8 |
|
Participação
estudantil |
21,1 |
47,4 |
31,6 |
A Figura 1
ilustra esta distribuição, evidenciando que, salvo na capacitação recebida, a
maioria das respostas se agrupa nas opções «Parcialmente» e «Não», o que
ratifica uma perceção
generalizada de insuficiência.
Resultados da observação de eventos
Da observação
direta de 246 eventos desportivos organizados nas IES de Tete, apenas 36,6 %
dispôs de infraestrutura adequada, enquanto 43,9 % contou com instalações
apenas parcialmente idóneas. Uma coordenação eficaz do pessoal de apoio
registou-se em 53,7 % das observações, e a resolução oportuna de imprevistos
ocorreu em 48,8 % das atividades.
Tabela 3. Análise das observações de eventos desportivos
(N = 246)
|
Aspeto observado |
Sim (%) |
Parcialmente (%) |
Não (%) |
|
Objetivos
apresentados com clareza |
65,0 |
22,0 |
13,0 |
|
Infraestrutura
adequada |
36,6 |
43,9 |
19,5 |
|
Resolução
eficaz de imprevistos |
48,8 |
37,4 |
13,8 |
Resultados das entrevistas a especialistas
Os cinco
especialistas consultados coincidiram por unanimidade (100 %) em assinalar a
insuficiência de fundos económicos e a urgência de priorizar a planificação
estratégica como fatores determinantes; do mesmo modo, 100 % recomendou
implementar programas permanentes de superação profissional para o pessoal de gestão.
Tabela 4.
Principais recomendações dos especialistas (N = 5)
|
Aspeto
avaliado |
N.º de respostas |
Percentagem (%) |
|
Recursos
financeiros insuficientes |
5 |
100,0 |
|
Priorização da planificação estratégica |
5 |
100,0 |
|
Recomendação de cursos de superação contínua |
5 |
100,0 |
Um dos
especialistas sintetizou o problema com clareza: a falta de uma cultura
institucional orientada para o aperfeiçoamento contínuo obriga os gestores a
procurar capacitação por iniciativa própria, o que raramente acontece devido à
falta de incentivos e recursos. Outro entrevistado acrescentou que as poucas
ofertas formativas existentes são esporádicas e não respondem às necessidades
reais do campo, deixando lacunas substanciais nas competências diretivas.
Síntese da triangulação
A integração
das quatro fontes de evidência (análise documental, questionários, observações
diretas e entrevistas) converge num diagnóstico inequívoco: notável escassez de
formação formal (documentos e questionários), infraestrutura deficiente
(questionários e observações) e ausência de uma planificação estratégica
sistemática (documentos, observações e entrevistas). Esta coincidência valida a
solidez do diagnóstico e sustenta as prioridades da estratégia
de superação profissional
formulada.
Os resultados da presente investigação mostram coincidências com outros
estudos realizados na província de Tete, Moçambique. Como apontam Chambal e
Cossa (2022), a maioria dos responsáveis pelo desporto universitário em Tete
são licenciados em Educação Física e Desporto, cuja formação inicial se centra
no ensino e no treino, com escassa atenção aos conteúdos de administração, planificação
estratégica e avaliação de projetos.
Por um lado, os gestores desportivos carecem de formação específica em
gestão de eventos. Esta lacuna formativa traduz-se numa planificação intuitiva
e reativa, mais do que num processo sistemático baseado em diagnósticos e
objetivos claros. O diagnóstico de necessidades de superação profissional na
província de Tete revela carências importantes em três dimensões: formação
teórico-metodológica, atualização tecnológica e apoio institucional
Em segundo lugar, a atualização tecnológica constitui uma necessidade
premente. López e Sánchez (2022) sustentam que a digitalização da gestão
desportiva é um fator-chave para melhorar a eficiência e a transparência dos
processos. Contudo, em Tete o acesso à internet e a dispositivos tecnológicos continua limitado, e os gestores não receberam capacitação
em ferramentas digitais aplicadas à organização de eventos (Tete Provincial
Government, 2023). Esta carência reduz a capacidade de promoção dos eventos,
dificulta a inscrição e comunicação com os participantes e limita a recolha de
dados para a avaliação.
Em Moçambique, o desporto universitário tem vindo a consolidar-se como
um espaço de desenvolvimento pessoal e comunitário, mas a sua gestão ainda
carece de profissionalização. Chambal e Cossa (2022) assinalam que, na
província de Tete, as instituições de ensino superior não dispõem de
departamentos de desporto com pessoal formado especificamente em gestão; pelo
contrário, as funções de planificação e organização de eventos recaem
frequentemente sobre docentes de educação física ou sobre pessoal
administrativo sem a preparação adequada. Esta situação limita a qualidade dos
eventos, reduz a participação estudantil e desaproveita o potencial do desporto
como ferramenta de coesão institucional.
Atender a estas necessidades exige um enfoque integral que combine a formação académica com o
fortalecimento institucional. Em primeiro lugar, recomenda-se conceber
programas de capacitação contínua específicos em gestão de eventos desportivos
universitários, com modalidade semipresencial ou virtual para superar as
barreiras geográficas da província de Tete (López & Sánchez, 2022). Estes
programas deveriam incluir módulos de planificação estratégica, logística,
gestão financeira, marketing desportivo, segurança e avaliação de eventos, bem
como o desenvolvimento de competências digitais.
Nesta mesma ordem de ideias, Mavila (2020) observou que as instalações
desportivas nas instituições de ensino superior moçambicanas são insuficientes
e frequentemente encontram-se em mau estado, o que obriga os gestores a
planificar com margens de incerteza elevadas e a procurar alternativas
criativas, como o uso de espaços comunitários ou a organização de eventos
itinerantes. Por conseguinte, a superação profissional não deve limitar-se à
transferência de conhecimentos técnicos, devendo incluir o desenvolvimento de
capacidades de adaptação, negociação e resolução de problemas em ambientes
precários.
Este mesmo autor assinala que os gestores encarregados de liderar estes
processos enfrentam sérias limitações derivadas de uma formação inicial
insuficiente, da escassez de programas de superação profissional e da
fragilidade das infraestruturas desportivas (Mavila, 2020). Do mesmo modo, que
o apoio institucional é fraco e que as instituições de ensino superior em
Moçambique dedicam orçamentos muito reduzidos ao desporto universitário, e as
autoridades académicas costumam priorizar outras áreas consideradas mais
académicas.
Como consequência, os gestores desportivos carecem dos recursos
financeiros, materiais e humanos necessários para organizar eventos de
qualidade, o que gera desmotivação e uma elevada rotatividade do pessoal. A
superação profissional, portanto, deve ser acompanhada de políticas
institucionais que reconheçam o valor do desporto e apoiem a formação contínua
dos seus gestores.
Em segundo lugar, a colaboração interinstitucional pode potenciar a superação
profissional. Beutler (2021) sugere que as universidades africanas estabeleçam
alianças com federações desportivas nacionais e internacionais, bem como com
universidades de outros países, para aceder a recursos formativos e boas
práticas. No caso de Tete, a proximidade com países vizinhos como o Malawi, a
Zâmbia e o Zimbabwe poderia facilitar intercâmbios e estágios que enriqueçam a
experiência dos gestores.
Em terceiro lugar, é necessário fomentar comunidades de prática e redes
de aprendizagem entre os gestores desportivos das diferentes instituições de
ensino superior da província. Estas redes permitiriam partilhar experiências,
resolver problemas de forma colaborativa e sistematizar lições aprendidas
(Parent & Ruetsch, 2021). Além disso, a implementação de sistemas de
avaliação de eventos, com indicadores de qualidade e de impacto, contribuiria
para profissionalizar a gestão e demonstrar o valor do desporto universitário
perante as autoridades institucionais.
Nesta
linha, Guidotti et al. (2023), num estudo realizado com gestoras desportivas
europeias, identificaram uma discrepância persistente entre a importância
atribuída a certas competências. Especialmente as de carácter técnico, como a
gestão financeira, o marketing e a gestão de riscos, e o seu domínio efetivo na
prática, recomendando conceber programas de formação adaptados às diferentes
etapas da carreira profissional.
Este
achado coincide com os trabalhos de Eksteen et al. (2015) na África do Sul, os
quais, após aplicarem um teste t para amostras dependentes a gestores de
desporto escolar, encontraram uma diferença estatisticamente significativa (p
< 0,001) entre a relevância atribuída a diversas competências de gestão e a
frequência real da sua execução, um padrão denominado «lacuna entre importância
e desempenho» (importance-performance gap), diretamente equiparável ao fenómeno
analisado em Tete.
Os
achados confirmam, num cenário moçambicano pouco explorado, o padrão de «lacuna
entre importância e desempenho» identificado por Eksteen et al. (2015) na
África do Sul: os gestores desportivos das IES de Tete reconhecem o valor
crucial da capacitação e da planificação (apoiado unanimemente pelos
especialistas). No entanto, a prática operativa diária está longe desse ideal
(apenas 20 % dos documentos e 15,8 % dos gestores reportam uma situação
adequada). Esta semelhança indica que essa lacuna não é um fenómeno isolado de
Moçambique, mas sim um padrão alargado na gestão desportiva em contextos
africanos com recursos escassos.
A
comparação com o exposto por Guidotti et al. (2023), na Europa, revela-se
igualmente ilustrativa: mesmo em ambientes com acesso a formação estruturada,
persiste uma distância entre a importância atribuída às competências técnicas
(finanças, marketing, gestão de riscos) e a sua aplicação prática. Se esta
lacuna se manifesta em contextos de maior desenvolvimento, é compreensível, e
os dados de Tete confirmam-no, que seja drasticamente mais pronunciada onde
42,1 % dos gestores não recebeu qualquer capacitação nos últimos dois anos.
Quanto
à gestão de recursos, os resultados corroboram que a infraestrutura deficiente
representa um dos maiores obstáculos para a organização de eventos desportivos
nas IES de Tete, sendo valorizada positivamente por apenas 15,8 % dos gestores.
A ausência de referências a alianças público-privadas nos documentos analisados
sugere que o patrocínio externo é uma via ainda desaproveitada, apesar de a
literatura internacional a assinalar como uma alternativa-chave para instituições
com restrições orçamentais (Guidotti et al., 2023).
Do
mesmo modo, um modelo de governança participativa,
que envolva estudantes, docentes e diretivos nos órgãos de decisão desportiva,
oferece uma via concreta para superar a falta de planificação estratégica
detetada, em consonância com os princípios de gestão organizativa colaborativa
propostos por Chelladurai e Kerwin (2018). A participação estudantil,
considerada plenamente satisfatória por apenas 21,1 % dos gestores, revela um potencial de envolvimento ainda não explorado na região.
Do
ponto de vista prático, os dados fundamentam três recomendações diretas: (1)
institucionalizar programas regulares de capacitação para gestores baseados em
mentorias e aprendizagem experiencial (Guidotti et al., 2023); (2) incorporar
mecanismos sistemáticos de avaliação posterior aos eventos, presentes hoje em
apenas 20 % dos documentos; e (3) promover modelos de governança participativa
e diversificação de recursos. Estas propostas constituem o núcleo da Estratégia
de Superação Profissional avaliada na investigação posterior.
Convém
destacar que o rigor metodológico deste diagnóstico, sustentado num censo de
gestores e na observação de 246 eventos, representa um contributo significativo
para a produção científica sobre gestão desportiva universitária em Moçambique,
historicamente caracterizada por estudos qualitativos sem triangulação
quantitativa. A coincidência entre as quatro fontes utilizadas respalda a
validade interna dos dados e reduz o risco de enviesamentos na interpretação.
Um
aspeto adicional emergente da triangulação é a ligação entre a falta de
avaliações pós-evento e a repetição sistemática dos mesmos erros ao longo do
tempo. Sem um ciclo estruturado de planificação, execução e avaliação, detetado
em apenas 20 % da documentação, os gestores recorrem à improvisação sem
capitalizar a experiência acumulada. Este comportamento alinha-se com o exposto
por Guidotti et al. (2023) sobre a necessidade de uma aprendizagem ao longo da
vida (lifelong learning), onde a avaliação contínua é essencial para atualizar
competências.
O
paralelismo metodológico com Eksteen et al. (2015) merece um comentário final.
No seu estudo com gestores do desporto escolar na África do Sul, a análise
estatística refletiu diferenças altamente significativas (p < 0,001) entre a
importância atribuída a competências como a gestão financeira, o marketing e a
logística de eventos, e a sua execução real na prática, recomendando workshops
de formação específicos nessas áreas.
É
relevante constatar que estas mesmas dimensões (gestão de recursos, captação de
fundos e logística de eventos) coincidem plenamente com os défices mais agudos
identificados em Tete (apenas 15,8 % de infraestrutura adequada; 100 % dos
especialistas a assinalar a falta de recursos). Esta convergência entre
contextos distintos confirma que a lacuna entre a relevância teórica da gestão
desportiva e a sua aplicação prática constitui um padrão estrutural e não um
facto isolado.
Com
base no diagnóstico realizado, propõem-se linhas de atuação em três níveis. No
nível institucional, sugere-se criar um comité ou conselho de gestão desportiva
integrado por estudantes, docentes e gestores, orientado por princípios de
governança colaborativa (Chelladurai & Kerwin, 2018), com capacidade para
aprovar e supervisionar os planos estratégicos anuais. No nível de capacitação,
propõe-se implementar um programa contínuo de formação fundamentado em
mentorias e aprendizagem experiencial (Guidotti et al., 2023), com módulos
focados em planificação estratégica, administração de recursos, captação de
financiamento e gestão de contingências.
No
nível de recursos, a formalização de alianças público-privadas apresenta-se
como uma opção viável para mitigar as restrições orçamentais assinaladas por
100 % dos especialistas, evitando depender unicamente dos fundos institucionais
diretos (Guidotti et al., 2023). Paralelamente, a adoção de ferramentas simples
de avaliação posterior aos eventos (listas de verificação, inquéritos de
satisfação e relatórios operacionais) permitirá transformar cada atividade numa
oportunidade de aprendizagem institucional, colmatando a lacuna documental
identificada.
Estas
três linhas de ação, governança participativa, formação estruturada e diversificação de recursos, reforçam-se
mutuamente. Um órgão de gestão participativo encontra-se em melhores condições
para negociar apoios externos e exigir avaliações sistemáticas do que um gestor
individual a trabalhar de forma isolada; cenário este último que reflete a
realidade de 42,1 % dos gestores de Tete que não recebeu capacitação nos
últimos dois anos.
Conclusões
O diagnóstico realizado nas IES de Tete evidencia carências estruturais, técnicas e
organizativas coincidentes na gestão desportiva universitária: falta de
formação especializada, infraestrutura deficiente em mais de 60 % dos eventos
observados e ausência de uma planificação estratégica sistemática, aspetos
corroborados pelas quatro fontes de evidência utilizadas.
Esta investigação
contribui para a literatura científica ao documentar,
com uma sólida base empírica (censo de gestores e avaliação de 246 eventos), um
padrão de lacuna entre importância percebida e desempenho real previamente
descrito noutros contextos internacionais, mas escassamente investigado no
ensino superior de Moçambique. Os resultados constituem uma base empírica
rigorosa para a conceção e fundamentação de uma Estratégia de Superação
Profissional para os gestores desportivos das IES de Tete, cuja efetividade prática se analisa num estudo
complementar.
Referências bibliográficas
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Beutler, I. (2021). Sport management education in Africa: Trends and
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