Revisão Recibido: 5/09/2025 │Aceptado: 3/12/2025
Periodização esportiva no
Brasil: os primeiros registros
Sportive
periodization in Brazil: the first records
Nelson
Kautzner Marques Junior. Mestre em Ciência da Motricidade Humana pela UCB. RJ. Brasil. [kautzner123456789junior@gmail.com]
Resumo
O
objetivo da revisão narrativa foi explicar como a periodização chegou, ficou
conhecida e foi desenvolvida no Brasil. A periodização começou com os povos
antigos para organizar o treino militar. Esse conteúdo foi utilizado no esporte
durante a Grécia antiga para preparar os atletas para a Olimpíada. A
periodização possui momentos históricos, que são os seguintes: periodizações
pioneiras (1917 a 1950), periodizações tradicionais (1950 a 1977) e
periodizações contemporâneas (1978 até os dias atuais). Porém, as periodizações
não eram conhecidas no mundo capitalista, somente no bloco soviético. Em 1965,
a tese de Matveev foi publicada como livro e aos
poucos esse conteúdo começou a ser divulgado no mundo. Oficialmente a
periodização ficou conhecida nos Estados Unidos da América e na Europa capitalista
nos anos 70 e 80. Quando a periodização esportiva chegou e ficou oficialmente
conhecida? A data exata que a periodização chegou ao Brasil não é sabido, mas a
Revista de Educação Física de 1958, 1964 e 1964 apresentou esse conteúdo. Em
conclusão, a periodização esportiva no Brasil chegou, ficou conhecida, foi
criada uma concepção e vem sendo desenvolvida para melhorar e aperfeiçoar a
performance do atleta brasileiro.
Palavras Chave: América do Sul; esporte;
treinamento; carga de treino.
Abstract
The objective
of narrative review was to explain how the periodization arrived in, became
known, and was developed in Brazil. Periodization began with ancient peoples as
a way to organize military training. This content was used in sports during
ancient Greece to prepare athletes for the Olympics. Periodization has
historical phases, which are as follows: pioneering periodizations
(1917 to 1950), traditional periodizations (1950 to
1977), and contemporary periodizations (1978 to the
present day). However, periodizations were not known
in the capitalist world, only in the Soviet bloc. In 1965, Matveev's
thesis was published as a book, and gradually its content began to be
disseminated around the world. Officially, periodization became known in the
United States of America and capitalist Europe in the 70s and 80s. When did
sports periodization emerge and become officially known? The exact date when
periodization arrived in Brazil is unknown, but the Physical Education Journal
of 1958, 1964, and 1964 presented this content. In conclusion, sports
periodization arrived in Brazil, became known, a concept was created, and it
has been developed to improve and refine the performance of Brazilian athletes.
Keywords: South
American; sport; training; load training.
Introdução
O
planejamento do treino é uma tarefa antiga efetuada pela humanidade, ele
começou a ser utilizada pelos povos da antiguidade como organização do
treinamento militar (Barbanti, 1997; Graham, 2002;
Marques Junior, 2023a; Ravé et al., 2010). É possível
citar nas antigas civilizações o planejamento do treino militar dos chineses,
dos romanos, dos gregos, dos egípcios e dos indianos.
O
planejamento do treino para a preparação esportiva começou com os gregos da
Grécia antiga, eles utilizavam os tetras que eram
compostos por quatro dias de treino, sendo três dias de estímulo e um dia de
recuperação (Dantas et al., 2022). Posteriormente os tetras
foram utilizados pelos militares da Roma antiga (Marques Junior, 2024a) e pelos
atletas romanos que eram os gladiadores (Marques Junior, 2021). Após esse
período, no século XVII ao XIX, o planejamento do treino continuou a ser
utilizado por diversos treinadores da Europa e dos Estados Unidos da América
para a preparação esportiva (Marques Junior, 2024b). Geralmente o planejamento
do treino era desenvolvido no atletismo, para depois ser aplicado em outras
modalidades individuais e muito depois esse planejamento do treino era
utilizado nos esportes coletivos (Tubino e Moreira,
2003).
De
1917 a 1950, foram criados os planejamentos do treino pioneiros (Gomes, 2002;
Marques Junior, 2022). Essas concepções foram estruturadas baseadas nas
estações do ano, no calendário competitivo e no tipo de treino (geral, especial
e competitivo) (Bondarchuk, 2016; Marques Junior,
2025a). A Revolução Russa de 1917 foi importante para a evolução do
planejamento do treino porque os revolucionários bolcheviques estabeleceram que
esse conteúdo era linha de pesquisa nas universidades da Rússia Soviética e
continuou quando foi formada a União Soviética em 1922 (Marques Junior, 2023b).
Esse procedimento dos soviéticos culminou com a criação de diversos
planejamentos do treino para a preparação esportiva.
Nos
planejamentos do treino pioneiros, a divisão da temporada era em etapas (geral,
especial, preparação e outros) conforme as estações do ano (treino de
primavera, treino de verão e outros) e de acordo com o tipo de treino (treino
de recuperação, treino de velocidade e outros) (Hegedus,
1985; Ravé et al., 2022; Silva, 2000). Essas etapas
visavam a preparação do atleta para as disputas, geralmente acontecendo no
verão e no outono do hemisfério norte. A partir do planejamento do treino
pioneiro de Dyson em 1946, de Ozolin
em 1949 e de Letunov em 1950, a divisão da temporada
passou a ser em períodos (Matveev, 1977; Ozolin, 1970; Pedemonte, 1986).
Talvez foi esse o momento que o planejamento do treino passou se chamar
periodização, esse termo foi originado da palavra período (Bompa,
2002).
De
1950 a 1977, os pesquisadores do esporte soviético elaboraram cinco
periodizações tradicionais, sendo três dos soviéticos (Matveev
em 1952, Arosiev e Kalinin
em 1971 e Vorobiev de 1971 a 1977), uma do húngaro Nádori em 1962 e uma do alemão oriental Tschiene
em 1977 (Costa, 2022; Marques Junior, 2025a; Tschiene,
1985). Isso aconteceu porque a periodização esportiva era amplamente estudada
pelo bloco soviético e linha de pesquisa nas universidades dessas nações
(Marques Junior, 2024c; 2025b; 2025c). As periodizações tradicionais foram
estruturadas com três conteúdos das periodizações
pioneiras (estações do ano, calendário competitivo e tipo de treino), mas os
períodos (preparatório, competitivo e de transição) foram elaborados baseado
nas adaptações fisiológicas do atleta que são monitorados por testes de
controle e objetivando a resposta fisiológica do esportista da supercompensação que é o pico da forma esportiva (Petrovic e Koprivica, 2025;
Marques Junior, 2025d).
Esse
avanço do conhecimento científico das periodizações tradicionais na organização
dos períodos embasados na fisiologia do exercício e com uma melhor metodologia
de treino, permitiu uma elevação do desempenho dos atletas nas competições
(González, 2018; Volkov e Popov, 1997). Outro
importante acontecimento dessa época, foi a criação dos nomes dos ciclos de
treino (microciclo, mesociclo e macrociclo)
pelo soviético Lev Pavilovch Matveev
(Marques Junior, 2023c, 2024d, 2024e; Ozolin, 1970).
Apesar
dessa evolução científica sobre a periodização esportiva, esse conteúdo só era
conhecido no bloco soviético (Fleck e Kraemer, 1999; Fleck e Figueira
Júnior, 2003; Kraemer e Häkkinen,
2004; Rowbottom, 2003; Stone et al., 2021). Portanto,
a periodização não foi difundida no mundo capitalista quando esse conteúdo era
chamado de planejamento do treino. Em 1964, o soviético Matveev
defendeu sua tese de doutorado sobre a sua periodização tradicional, até esse
momento o conteúdo da periodização era desconhecido no mundo capitalista
(Marques Junior, 2024d). Em 1965, a tese de Matveev
foi publicada em um livro em Moscou, e aos poucos essa obra começou a ser
publicada em outros idiomas, como no espanhol sobre a sua periodização
tradicional que pode ser lida em Matveev (1977). Em
alemão, esse livro de Matveev começou a ser publicado
em poucos exemplares e algumas obras foram enviadas para Alemanha Ocidental (Kruger, 1974). Então, os livros foram publicados na
Alemanha Oriental e depois foram encaminhados para os alemães ocidentais.
Nos
Estados Unidos da América (EUA) a periodização começou a ser conhecida em 1966,
isso ocorreu com a tradução para o inglês da periodização do soviético Valery Brumel, esse esportista
foi campeão olímpico em 1964 no salto em altura (Freeman, 1989). Oficialmente a
periodização ficou conhecida nos EUA e na Europa capitalista nos anos 70 e 80
(Marques Junior, 2025a). Isso pode ser evidenciado na revisão do estadunidense Yessis (1982), ele explicou como os soviéticos estruturavam
os microciclos e mesociclos da periodização
esportiva. Também era informado o que era macrociclo.
Yessis foi um importante pesquisador dos EUA que
divulgou a periodização no seu país, ele foi aluno do soviético Verkhoshanski em Moscou no tempo da União Soviética e foi
editor do periódico Soviet Sports Review nos anos 60
a 70 que divulgou os estudos científicos da União Soviética nos EUA.
E no
Brasil, quando a periodização esportiva chegou e ficou oficialmente conhecida?
A literatura brasileira do treinamento esportivo não possui essa informação (Barbanti, 2001; Dantas, 1995; Gomes, 1999; Tubino, 1993). Então, o objetivo da revisão narrativa foi
explicar como a periodização chegou, ficou conhecida e foi desenvolvida no
Brasil.
Desenvolvimento
Esporte, educação
física e periodização esportiva no Brasil
O Brasil foi descoberto em 1500 pelos portugueses,
ocorrendo uma colonização gradativa dessa nação. O período do Brasil Colônia
foi de 1500 a 1822, as práticas esportivas efetuadas pelos nativos, os índios,
eram tarefas utilitárias como arco e flecha, natação, canoagem, corrida,
marcha, equitação, caça e pesca visando a sobrevivência na selva brasileira (Tubino, 1996).
O Brasil Império foi de 1822 a 1889, a novidade desse
momento foi a criação das escolas militares que desenvolveram as práticas
esportivas como esgrima, natação, ginástica, equitação e tiro ao alvo etc (Tubino, 2002). Em 1828, no
Brasil Império, foi publicado o 1º livro brasileiro de educação física, o
Tratado de Educação Física Moral dos Meninos, escrito por Joaquim Jerônimo
Serpa (Souza, 1972). Nesse período surgiu uma atividade física ligada a
identidade cultural brasileira, que foi a capoeira, sendo uma luta dançante com
movimentos acrobáticos e possuindo acompanhamento musical (Hespanha,
2004). A capoeira visava a libertação do negro africano da escravidão sofrida
no Brasil.
A prática esportiva nas escolas militares desencadeou
interesse nos colégios civis, sendo inserido o esporte no Colégio Pedro II (Tubino, 2002). Outro ocorrido importante foi a criação dos
primeiros clubes de esporte, como o Grupo dos Mareantes em 1851, o Sogipa em 1867, o Clube Ginástico Português em 1868, o
Clube Guanabarense em 1874, o Clube de Regatas Cajuense e o Clube de Regatas Internacional em 1885 (Souza,
1972). O esporte mais praticado nesse período imperial era o remo, ocorrendo
competições imitando as europeias e da mais prestigiada desse continente que
era a inglesa (Tubino, 1996). O remo impulsionou a criação de alguns
clubes como o Clube de Regatas Vasco da Gama em 1898, o Clube de Regatas do
Flamengo em 1895 e outros.
Em 1822, o advogado baiano Rui Barbosa foi muito
importante para a evolução do esporte e da educação física no Brasil
(Ghiraldelli Junior, 2001). Ele considerava fundamental a prática de atividade
física e esporte nas escolas e para a população em geral, essa iniciativa foi
baseada na Europa que valorizava essa atividade motriz. Em 12 de setembro de
1882, o Parecer de Rui Barbosa sobre o Projeto 224 foi emitido na sessão da
Câmara de Deputados, sendo apresentada nas seguintes proporções (Souza, 2002):
1º) instituição de uma seção especial de ginástica em cada escola normal; 2º)
extensão obrigatória da ginástica a ambos os sexos; 3º) inserção da ginástica
nos programas escolares e 4º) equiparação, em categorias e autoridades, dos
professores de ginástica aos de todas as outras disciplinas.
A Proclamação da República no Brasil ocorreu em 15 de
novembro de 1889, e se estende até os dias atuais. O período republicano
promoveu significativa evolução do esporte e da educação física nessa nação.
Por exemplo, foi implantada em 1891 a Associação de Cristã de Moços (ACM) no
Rio de Janeiro, ela ofereceu ginástica e vários esportes (Souza, 1972). O remo
se tornou principal esporte até a primeira década do século XX (Tubino, 2002). Vários métodos de ginástica idealizados na
Europa foram implantados no Brasil, tendo destaque para a ginástica alemã até a
primeira metade do século XIX (Tubino, 1996).
Posteriormente o método de ginástica francês se tornou o mais popular, isso
ocorreu principalmente após a 1ª Guerra Mundial (1ª GM).
A 1ª GM foi de 1914 a 1918 entre a Tríplice Aliança
(composto pelo Império Austro Húngaro, o Império Alemão, o Império Turco
Otomano e aliados) versus a Tríplice Entente (composto pela França, Reino
Unido, Império Russo até 1917 e em seu lugar entrou os Estados Unidos da
América em 1917 e aliados), esse conflito mundial terminou com a vitória da
Tríplice Entente (Marques Junior, 2024), isso ocasionou em um desinteresse pela
ginástica alemã no Brasil (Tubino, 1996). Outro
acontecimento importante, a partir de 1920, o futebol começou a se tornar um
dos principais esportes (Tubino, 2002). Ainda em
1920, ocorreu a 1ª participação brasileira em Jogos Olímpicos, o Brasil
começava com sucesso nessa disputa, ganhou 3 medalhas no tiro, uma de ouro com
Guilherme Paraense, uma de prata com Afranio Costa e
uma de bronze na competição por equipes.
Nos
anos 30, os professores de educação física do Brasil eram formados em
instituições militares, o ensino efetuado nessas escolas visava a formação do
homem soldado que deveria saber correr, nadar, atirar e possuir habilidades para
o combate (Resende e Soares, 1996). Em 1933, foi fundada a Escola de Educação
Física da Urca, localizada no bairro da Urca que se encontra na zona sul do Rio
de Janeiro, na Fortaleza de São João (Massucato e Barbanti, 1999). Essa instituição existe até nos dias
atuais e fornece um ensino de qualidade – veja em https://www.youtube.com/watch?v=97E-XJCdBZw,
https://www.youtube.com/watch?v=YuGiJuz80Fg
e https://www.youtube.com/watch?v=T7GI5FhuOsc.
Posteriormente foram formados outras escolas militares
no Brasil, e em 1939 foi criada a 1ª escola civil de formação de professores de
educação física (Coletivo de Autores, 1992). Isso resultou na criação de
diversas universidades de educação física para a população civil. Essa formação
do esporte e da educação física ocasionou na evolução do conteúdo científico
dessas duas atividades motrizes. Então, em qual momento a periodização
esportiva chegou no Brasil?
Em 1932, a
Revista de Educação Física foi publicada pela Escola de Educação Física da
Urca, esse periódico foi uma das primeiras revistas científicas do Brasil
(Melo, 2006) – essa revista pode ser acessada em https://revistadeeducacaofisica.emnuvens.com.br/revista/issue/archive. Através dessa revista, começaram
ser publicados os primeiros artigos sobre a periodização esportiva no Brasil.
Mas a data certa que esse conteúdo chegou no Brasil não é sabido.
Em 1958, na
Revista de Educação Física, Façanha e Figueira escreveram um artigo sobre o
plano de treinamento do atletismo com o plano de treinamento semanal. Plano de
treinamento era o termo da época utilizado para a periodização e plano de
treinamento semanal era o mesmo que microciclo. As provas do atletismo que os autores
explicaram sobre o plano de treinamento foram para saltadores, arremessadores,
corredores e dando atenção a prova de 400 metros rasos. Gonçalves (1964) foi
outro pesquisador que escreveu sobre o plano de treinamento para provas de
fundo do atletismo. A nomenclatura utilizada para microciclo por esse
pesquisador era semana. Ele ainda escreveu um exemplo do treino da semana
(treino da semana é o mesmo que treino do macrociclo),
para prova de 5000 metros.
Em 1964,
Pinto apresentou na tabela 1 o plano de treinamento da natação de diversos
treinadores do Brasil e de outros países como Austrália, Estados Unidos da
América (EUA) e Inglaterra.
Tabela 1. Plano de treinamento
(periodização) da natação
|
Técnico |
Fases
ou Similares |
|
Júlio
Mendes (Brasil) |
1ª)
Fase de Preparação (3 meses): aquisição da forma física (geral e especial). 2ª)
Fase de Adaptação (15 dias): adaptar as características da prova. 3ª)
Fase de Base (45 dias): melhorar o desempenho na prova. 4ª)
Fase de acabamento (20 dias): preparar para prova e competir. |
|
Rômulo
Arantes (Brasil) |
1ª)
Fase de Ginástica (5 semanas): aquisição das capacidades motoras
condicionantes. 2ª)
Fase de Aplicação (6 semanas): melhora das capacidades motoras
condicionantes. 3ª)
Fase de Adaptação (5 semanas): preparar para a prova, aumentar
progressivamente a intensidade. |
|
Don
Talbot (Austrália) |
1)
Fora da Temporada (3-5 meses): em terra, força e elástico. 2)
Durante a Temporada: na água com 3 fases: 1ª fase) Preparação para a
Temporada (2 semanas): melhorar o nado e o condicionamento físico, 2ª fase)
Durante a Temporada: intensificar progressivamente o treino e 3ª fase) Última
Preparo: treino feito próximo da disputa. |
|
Peter
Doland (EUA) |
1)
Fora da Temporada (2 meses): ênfase na ginástica, um pouco de natação. 2)
Durante a Temporada (3 meses): ênfase na água. 3)
Após a Temporada (2 meses): afastamento da piscina (é o período de
transição). |
|
A.
Kinnear (Inglaterra) |
1)
Período de Fundação (6 meses): treino físico (fora e na água), técnico e
tático. 2)
Período Pré-Competitivo. 3)
Período Competitivo. |
Nos anos 70,
a Secretaria de Educação e Desporto do Ministério de Educação do Brasil fez um
convênio com o Governo da Alemanha Ocidental, os treinadores do atletismo
brasileiro realizaram estágios de aperfeiçoamento nas cidades de Mainz e
Dortmund, e um dos conteúdos ensinados pelos professores fugidos da Alemanha
Oriental foi a periodização tradicional de Matveev,
sendo passada as experiências com o uso dessa concepção em diversas provas do
atletismo (Oliveira, 2008). Após os treinadores do atletismo aprenderem sobre a
periodização tradicional de Matveev, começaram
aparecer os primeiros artigos sobre essa concepção, um deles foi sobre a
detecção do pico nas provas do atletismo e da natação dos países da Europa e
dos Estados Unidos da América (EUA) (Rocha, 1976). Esse trabalho foi publicado
na Revista de Educação Física, um dos periódicos que iniciou o conhecimento no
Brasil sobre a periodização. Outros artigos sobre essa concepção foram
publicados no Brasil (Agostinho, 1998; Mortatti e
Gomes, 1998; Rocha, 1976b, 1983).
A
periodização tradicional de Matveev se difundiu nos
cursos de educação física a partir dos anos 70 e 80, até 1999, só o estudo
dessa concepção era realizado. Os livros de treinamento esportivo durante esse
período explicavam somente essa concepção (Barbanti,
1997; Tubino, 1993). Então, os estudantes e alguns
treinadores brasileiros achavam que a periodização era somente a concepção de Matveev. Embora os anos 80 tenham sido o momento que a
educação física do nosso país começou a se desenvolver cientificamente por
causa da chegada dos professores doutores e mestres do exterior, isso iniciou
no fim dos anos 70 (Barbanti et al., 2004).
O 1º professor de educação física com título de doutorado foi Fernando Barroso Beltrão, isso ocorreu em 1976, no Doutorado em Administração e Supervisão Educacional pela Universidade de Syracuse, tendo como orientador o estadunidense Randel (Beltrão, 2006). O título da sua tese foi The Rose of the Instructional Supervisors in the Junior High School in Rio de Janeiro. Essa professora pioneira ainda atingiu o título de mestrado no ano de 1960 e o título de pós-doutorado em 1981 e em 1987, ambas conquistas acadêmicas ocorreram nos Estados Unidos da América (Beltrão et al., 2002). A figura 1 apresenta essa extraordinária professora que contribuiu muito com a educação física brasileira.

Figura 1. Professora Fernanda Beltrão, 1º professor de
educação física com doutorado no Brasil (Extraído de Beltrão, 2006).
Apesar da
periodização tradicional de Matveev ficar bastante conhecida
no Brasil, as obras desse autor foram traduzidos do
russo para o português somente nos anos 90 (Matveev,
1995, 1997). Obras russas traduzidas para o português também eram com a
periodização de Matveev (Zakharov,
1992). Então, os alunos de educação física e muitos treinadores só conheciam
essa concepção.
Em 1987, o
pesquisador do esporte Antônio Carlos Gomes trouxe da Rússia uma referência
sobre a periodização em bloco de Verkhoshanski e os
seu ex-técnico de atletismo e incentivador acadêmico, Paulo Roberto de
Oliveira, teve acesso a essa metodologia (Oliveira, 2008). As primeiras
publicações sobre periodização em bloco ocorreram em 1995, através do livro de Verkhoshanski (1995) e do artigo de revisão de Gomes
(1995). O 1º estudo sobre a periodização em bloco aconteceu na tese de
Doutorado de Paulo Roberto de Oliveira que foi defendido na UNICAMP (Oliveira,
1998). Posteriormente alguns artigos sobre essa tese foram publicados por
Oliveira e Silva (2001).
Após a
chegada dessa 2ª periodização no Brasil, os treinadores e estudantes de
educação física começaram a ter contato com outras periodizações como o livro
de Silva (2000), Forteza (2001) e Gomes (2002). Outro ocorrido importante, foi
a criação da 1ª periodização no Brasil por Antônio Carlos Gomes, a periodização
de cargas seletivas que resultou no título brasileiro de 2001 para o Clube
Atlético Paranaense (Gomes, 2002).
Após 2002,
os livros de treinamento esportivo (Forteza, 2004; Tubino
e Moreira, 2003) e artigos (Rezende et al., 2003; Stanganelli
et al., 2006) passaram a ter a periodização como conteúdo obrigatório. Em 2011,
foi escrito o 1º artigo sobre a periodização específica para o voleibol, o
brasileiro Marques Junior vem elaborando a teoria dessa concepção em vários
artigos que se encontram na internet (Marques Junior, 2025a). O treino com bola
possui uma novidade, a carga de treino é estruturada baseada no esforço do
fundamento pela frequência cardíaca e no nível de lesão do fundamento (Marques
Junior, 2021). Outro conteúdo do treino com bola, pode ser estabelecida a
intensidade subjetiva do treino com bola (Marques Junior, 2025e). Recentemente
foi publicado o 1º artigo original sobre a periodização específica para o
voleibol, o trabalho de Araujo (2025) com a
metodologia de treino dessa concepção. Os resultados dessa pesquisa detectaram
melhor precisão do ataque e do saque. Também foi evidenciado que a escola de
percepção subjetiva do esforço (PSE) é eficaz com o método Foster para
estabelecer a carga de treino. Portanto, a evolução do conhecimento científico
sobre a periodização permitiu a elaboração de uma teoria desse conteúdo que já
possui a 1ª evidência científica para o voleibol.
Conclusões
A periodização iniciou para organizar o treino militar
dos povos da antiguidade, posteriormente esse conteúdo passou a ser utilizado
no esporte, iniciando através dos gregos como preparação para a Olimpíada da
antiguidade. A nação que mais contribuiu com a evolução da periodização foram
os cientistas do esporte soviético porque esse conteúdo era linha de pesquisa
nas universidades dessa nação. A data da chegada da periodização esportiva no
Brasil não é exata, mas algumas evidências científicas da Revista de Educação
Física de 1958, 1964 e 1964 apresentaram o início desse conteúdo no Brasil,
nação localizada na América do Sul e de língua portuguesa. Entretanto, por
muito tempo a periodização tradicional de Matveev foi
a única conhecida no Brasil, isso foi dos anos 70 a 1994.
A partir de 1995, principalmente em 1998 e 2001 quando
foram publicados os primeiros estudos sobre a periodização em bloco, essa
concepção ficou conhecida no Brasil. Após esse ocorrido no ano 2000, 2001 e
2002, foram publicados trabalhos apresentando outros tipos de periodizações.
Esse maior conhecimento sobre a periodização no Brasil gerou na criação da
periodização de cargas seletivas e ainda vendo sendo desenvolvida a
periodização específica para o voleibol.
Em conclusão, a periodização esportiva no Brasil
chegou, ficou conhecida, foi criada uma concepção e vem sendo desenvolvida para
melhorar e aperfeiçoar a performance do atleta brasileiro.
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